terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Papa Bento 16 é doador de órgãos; "confissão" foi feita há dez anos
O papa Bento 16 --que reprova a fecundação in vitro, condena o uso de células-tronco embrionárias e é contrário ao uso de contraceptivos como a camisinha-- não vê problemas na doação de órgãos. O líder máximo da Igreja Católica é inscrito há mais de uma década em uma associação de doadores de órgãos. Ele falou pela primeira vez sobre o tema publicamente há exatos dez anos, no dia 3 de fevereiro de 1999, quando ainda era cardeal e ocupava a posição de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (que, vale dizer, é o atual nome do Santo Ofício da Inquisição). As informações estão na biografia "Bento XVI - O Guardião da Fé" (Record), que relata a trajetória de Joseph Ratzinger desde sua juventude na Alemanha até a sua eleição como líder máximo da Igreja Católica. Leia abaixo três breves trechos do livro que relatam episódios vividos pelo atual papa quando ocupava a posição de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O primeiro trecho relata evento de 1987, quando o cardeal Joseph Ratzinger publica a A Instrução Donum Vitae, documento que traz a posição oficial do Vaticano sobre as pesquisas com embriões. O segundo episódio, de 1988, mostra Ratzinger posicionando-se contrariamente a uma proposta de bispos americanos para aprovar o uso de contraceptivos. O terceiro episódio, de 1999, relata a "confissão" pública de Ratzinger sobre sua inscrição na associação de doadores de órgãos. Saiba mais sobre o livro. * Em 1987, o ex-Santo Ofício de Ratzinger se ocupa com novos temas, como a bioética e a ameaça à vida que nascem mais do progresso do que da concepção cristã. É um campo ao qual o cardeal está muito ligado. A Instrução Donum Vitae, que intervém num debate que permanecerá atualíssimo e continua ainda hoje a provocar discussões, apresenta-se sob a forma de perguntas e respostas. Nesta se lê que o embrião, como "ser humano", "deve ser respeitado --como uma pessoa-- desde o primeiro instante da sua existência". Deste modo é afirmado que "a pesquisa médica deve se abster de intervenções nos embriões vivos, a menos que haja a certeza moral de não provocar dano nem à vida nem à integridade do nascituro e da mãe". "Nenhuma finalidade, ainda que nobre em si mesma, como a previsão de utilidade para a ciência, para outros seres humanos ou para a sociedade, pode, de modo algum, justificar a experimentação em embriões ou fetos humanos vivos." A "fecundação artificial heteróloga" (aquela que utiliza gametas de pelo menos um doador que não seja um dos esposos), é definida como "contrária à unidade do matrimônio, à dignidade dos esposos" e "inaceitável". É também negativo, embora mais brando, o julgamento sobre a "fecundação artificial homóloga". No último parágrafo do documento se encontra uma crítica aberta à legislação civil de numerosos países, "que hoje conferem aos olhos de muitos uma legitimação indevida de certas práticas". Sobre esses argumentos, seguidamente, fará intervenções mais vezes, também com uma encíclica, o próprio João Paulo II. * Os bispos nos Estados Unidos e o preservativo Reprodução Na passagem de 1987 para 1988, houve uma troca de cartas entre a Congregação para a Doutrina da Fé e a Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Na origem do esclarecimento está um documento pastoral sobre a Aids, escrito pelos bispos americanos. Redigido em novembro e aprovado por unanimidade, o documento foi minuciosamente analisado pela Santa Sé. No início de junho de 1988, Ratzinger havia escrito algumas observações, criticando, em seu nome e em nome do papa, o fato de que o documento reconhecia a possibilidade de permissão do uso de preservativos como meio de combate à Aids. Segundo o cardeal, esta menção podia dar a impressão de que a Igreja --contrária ao uso de contraceptivos artificiais-- houvesse modificado a sua posição, não obstante o cuidado com que essa possibilidade era colocada no texto dos bispos americanos, que explicavam a doutrina tradicional da Igreja. Os prelados dos Estados Unidos decidiram escrever novamente o documento, embora mantendo, explica o cardeal Joseph Bernardin, arcebispo de Chicago, substancialmente inalterada a primeira abordagem relativa ao confronto com a Aids. * Doador de órgãos Em 3 de fevereiro de 1999, Ratzinger "confessou" publicamente, pela primeira vez, que estava inscrito em uma associação de doadores de órgãos: "Pôr à disposição, espontaneamente, partes do próprio corpo para ajudar quem tenha necessidade é um gesto de grande amor", explicou. "É lícito aderir, espontaneamente, e em plena consciência, à cultura dos transplantes e das doações de órgãos. De minha parte, posso dizer somente que já faz anos que eu me pus inteiramente em disponibilidade para doar, em face de uma eventualidade, os meus órgãos para quem se encontre em necessidade. Estou inscrito, faz anos, na associação, e trago sempre comigo este documento, no qual, além dos meus dados pessoais, está escrito que eu estou disponível, no caso de uma eventualidade, para oferecer os meus órgãos ajudando alguém que tenha necessidade: é um ato de amor, um ato de afeto gratuito, de disponibilidade."
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